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Dia Internacional da Mulher: as barreiras estruturais que impedem a igualdade

Publicação ACEGIS, 8 de março de 2026

As desigualdades de género são transversais e continuam a manifestar-se em vários domínios da vida social e económica. Frequentemente têm origem em discriminações e estereótipos profundamente enraizados relativamente ao papel das mulheres na sociedade, ao valor atribuído ao seu trabalho e à sua posição no mercado de trabalho.

No âmbito do Dia Internacional das Mulheres, a ACEGIS destaca a importância da igualdade de género no mercado de trabalho e no acesso a posições de poder em Portugal. Os dados divulgados pelo Observatório Género, Trabalho e Poder do ISEG – Instituto Superior de Economia e Gestão permitem acompanhar a evolução das desigualdades entre mulheres e homens, bem como refletir sobre os desafios que ainda persistem.

De acordo com o relatório, apesar da elevada participação feminina no mercado de trabalho, persistem desafios estruturais que se refletem na precariedade laboral, nos padrões de segregação profissional e vertical, nas desigualdades remuneratórias, na maior vulnerabilidade à pobreza, bem como na persistência de assimetrias no trabalho não remunerado e na gestão dos tempos de trabalho e de vida.

Estes dados reforçam a necessidade de políticas integradas que promovam a eliminação de estereótipos de género, a dessegregação do mercado de trabalho, o emprego de qualidade, a valorização das profissões com predominância feminina, a igualdade remuneratória para trabalho igual ou de valor igual, a participação das mulheres nas esferas de decisão e uma repartição equilibrada do trabalho doméstico e de cuidados.

Com esta publicação, a ACEGIS associa-se à reflexão global que assinala o Dia Internacional da Mulher, reafirmando o seu compromisso com a promoção de uma sociedade mais justa, paritária e inclusiva. É fundamental garantir a participação plena das mulheres e a igualdade de oportunidades na liderança em todos os níveis de decisão política, económica e pública para promover o desenvolvimento sustentável e fortalecer as instituições democráticas.

Embora tenham sido registados progressos, as mulheres continuam a enfrentar barreiras para entrar, permanecer e progredir num emprego digno.

São necessárias reformas estruturais que abordem a distribuição desigual das responsabilidades de cuidados, as disparidades salariais, a violência e o assédio no trabalho — fatores que tornam muitos ambientes de trabalho desiguais e inseguros para as mulheres.

Promover a igualdade de género implica combater desigualdades de direitos, tratamento, responsabilidades, oportunidades e reconhecimento em todos os setores da sociedade. Trata-se de um esforço contínuo para eliminar estereótipos de género que perpetuam modelos históricos de discriminação, desigualdade, violência e opressão.

Susana Pereira

Fundadora da ACEGIS

Reduzir as desigualdades, um desafio central da Agenda 2030

A Agenda 2030 regista com preocupação as “desigualdades crescentes” e as “enormes disparidades de oportunidades, riqueza e poder” que existem no mundo.

As barreiras estruturais que impedem a igualdade

A – Participação laboral de mulheres e homens

Escolaridade e emprego: a sobre-escolarização das mulheres

  • As mulheres apresentam níveis de escolaridade superiores aos dos homens, tanto em Portugal como na UE27.”
  • “Em Portugal, 41,5% das mulheres empregadas (20–64 anos) possuem um diploma de nível superior, face a 27,8% dos homens.”
  • “Entre a população jovem empregada (15–29 anos), quase metade das mulheres (48,4%) detém o nível superior de escolaridade, revelando uma clara vantagem relativamente aos homens (29,3%) neste indicador.”
    Fonte: LFS- 2024/Eurostat

Emprego feminino: elevado e em crescimento

  • “Portugal apresenta uma das taxas de emprego feminino mais elevadas da UE27. Em 2024, 75,7% das mulheres entre os 20 e os 64 anos estavam empregadas, acima da média europeia (70,8%).”
  • “Este indicador revela uma evolução positiva no sentido da igualdade entre mulheres e homens, mas não capta as desigualdades estruturais em função do género que continuam a caracterizar o mercado de trabalho.”
    Fonte: LFS- 2024/Eurostat

 

Maternidade e paternidade: efeitos diferenciados no emprego

  • “Na UE27, a paternidade tende a reforçar a participação laboral masculina, enquanto a maternidade continua associada à redução da taxa de emprego das mulheres.”
  • “Portugal constitui uma exceção, integrando o grupo restrito de países onde as mulheres com crianças pequenas apresentam taxas de emprego superiores às das mulheres que não são mães. Essa taxa situa-se entre as mais elevadas (82,5%) do conjunto de países da UE (média de 68,4%).”
    Fonte: LFS- 2024/Eurostat

Horas de trabalho remunerado

  • “Em Portugal, as mulheres empregadas dedicam, em média, 35,9 horas semanais ao trabalho remunerado, um valor superior à média das mulheres dos demais países da UE27 (33,1 horas). Observa-se igualmente que o diferencial face aos homens é inferior ao registado no conjunto europeu (+3,0 horas em Portugal, face a +4,9 horas na UE27).”
    Fonte: LFS- 2024/Eurostat

Trabalho a tempo parcial

  • “No contexto da UE, o trabalho a tempo parcial é predominantemente exercido por mulheres.”
  • “Em Portugal, apenas 9,7% das mulheres e 4,8% dos homens trabalham a tempo parcial, contrastando com a média europeia, onde 28,4% das mulheres se encontram neste regime.”
  • “Para um número expressivo de trabalhadoras/es do país, o trabalho a tempo parcial em Portugal é involuntário.”
    Fonte: LFS- 2024/Eurostat

Teletrabalho

  • “Na maioria de países da UE, há mais mulheres do que homens em teletrabalho. Em Portugal, trata-se de aproximadamente 19,7% das mulheres e 18,4% dos homens.”
  • “No entanto, apenas cerca de 7,4% das mulheres e 7,8% dos homens estão em teletrabalho num registo regular.”

Precariedade contratual

  • Os contratos temporários afetam 16,3% das mulheres e 15,8% dos homens em Portugal.”
  • “Entre jovens (15–29 anos), a precariedade dos vínculos atinge 41% das mulheres e 38% dos homens, valores superiores à média europeia.”
    Fonte: LFS- 2024/Eurostat

Desemprego

  • “Entre os 15–64 anos, a taxa de desemprego das mulheres é de 7%, face a 6,2% dos homens.”
  • “Entre jovens (15–29 anos), os valores aproximam-se: 14,3% para as mulheres e 14,1% para os homens.”
    Fonte: LFS- 2024/Eurostat

B – Desigualdades no trabalho remunerado e nas profissões

Reforço da segregação profissional

  • “Entre 2010 e 2023, o emprego tanto de mulheres como de homens reforçou-se em profissões onde já representavam uma ampla maioria (60–80% do total de trabalhadores/as), e registou-se um declínio do peso relativo do emprego em profissões com uma distribuição mais equilibrada (40–59%).”
  • “Mais de 50% das mulheres (ou dos homens) teriam de mudar de profissão para que fosse alcançada uma distribuição equilibrada na estrutura de profissões.”
  • “A segregação das profissões em função do género explica cerca de 28,8% do diferencial remuneratório entre mulheres e homens em Portugal.”
    Fonte: Quadros de Pessoal – 2023/GEP/MTSSS

 

Desigualdades remuneratórias

  • O ganho médio mensal das mulheres é 15,4% inferior ao dos homens, considerando todos os trabalhadores/as.”
  • “Quando se ajustam diferenças em idade, escolaridade e antiguidade, o diferencial atinge 17,5%.”
  • “Entre profissionais com ensino superior e cargos superiores, o diferencial ajustado aumenta para cerca de 24,7%.”
    Fonte: Quadros de Pessoal – 2023/GEP/MTSSS

Setores CTEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática)

  • “Nas profissões CTEM, as mulheres permanecem fortemente subrepresentadas, representando 28,4% do emprego neste conjunto de profissões em Portugal.”
  • “O diferencial remuneratório ajustado nestes setores aumentou aproximadamente 6 pontos percentuais entre 2010 e 2023.”
    Fonte: Quadros de Pessoal – 2023/GEP/MTSSS

Mulheres em órgãos de gestão e decisão

  • “Nos órgãos de administração de empresas públicas, a paridade de 40% foi atingida.”
  • “No setor empresarial local, a média é de 35% de mulheres, existindo fragilidades institucionais na aplicação das normas de igualdade.”
  • “Nas empresas cotadas em bolsa, mulheres ocupam 46% dos cargos não executivos, mas apenas 15% dos executivos.”
    Fonte: Observatório Género, Trabalho e Poder – 2026

C – Gestão do tempo, trabalho não remunerado e pobreza

Pobreza e vulnerabilidade

  • “Em 2023, cerca de 978 mil mulheres encontravam-se em situação de pobreza monetária em Portugal.”
  • “A taxa de pobreza feminina é de 17,6%, superior à masculina e à média nacional.”
  • “O gender poverty gap atingiu 1,14, acima da média da União Europeia.”
    Fonte: INE – 2023 / Observatório Género, Trabalho e Poder

Trabalho não remunerado e gestão do tempo

  • “Persistem diferenças acentuadas entre mulheres e homens na distribuição do tempo de trabalho não remunerado.”
  • “Durante dias úteis, as mulheres dedicam aproximadamente 20% do seu tempo ao trabalho doméstico não remunerado, enquanto os homens dedicam cerca de 13%.”
  • “Nos fins de semana, esta diferença acentua-se, reduzindo as oportunidades de lazer e profissionais para as mulheres.”
  • “A desigualdade no trabalho não remunerado contribui para limitar o progresso da igualdade salarial e profissional.”
    Fonte: INE – 2023 / Observatório Género, Trabalho e Poder

 

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